Suporte Dermatológico

História

Em 2004, na Faculdade de Medicina do ABC, ao ser procurada por uma paciente em tratamento quimio e radioterápico, apresentando todos os tipos de lesões possíveis, me deparei com uma situação prevalente naquela época: os dermatologistas não tratavam pacientes que estivessem em tratamento oncológico.

Após alguns dias de tratamento a paciente apresentou significativa redução do grau de sofrimento e melhora de sua autoestima e qualidade de vida.

Nesse processo a Dra. Dolores identificou que:

1.não existia em nenhum lugar do mundo uma dermatologia focada na diminuição do impacto dessas terapêuticas sobre a pele;

2.existia uma Oncodermatologia restrita apenas ao diagnóstico e tratamento de tumores que fossem única e exclusivamente de manifestação cutânea, sem pensar nos efeitos colaterais cutâneos e no impacto que estas condutas oncológicas podem gerar sobre a pele;

3.frequentemente os pacientes em tratamento oncológico apresentavam efeitos colaterais cutâneos graves, com diferentes lesões dermatológicas exuberantes ao mesmo tempo, como micose em todas as unhas, Herpes Zoster e mucosite, entre outras, associadas a alterações inestéticas como queda de cabelos e cicatrizes;

4.a imunodepressão desencadeada pela quimioterapia, presente em muitos destes pacientes, implicava em grande suscetibilidade a outras doenças dermatológicas;

5.muitas vezes o alto grau de sofrimento ainda levava à interrupção dos tratamentos oncológicos ou sua substituição por outros com efeitos colaterais menores, mas menos efetivos; e

6.tais efeitos eram acompanhados de alterações estéticas importantes como cicatrizes e queda de cabelo, entre outros, que tem grande impacto na autoestima e qualidade de vida.

Mais tarde, com o advento das novas terapias oncológicas como os Biológicos e Terapias Alvo, com aumento significativo dos efeitos colaterais e manifestações cada vez mais severas sobre a pele, passamos a fazer a prevenção e tratamento da Síndrome Mão Pé, Exantemas e Erupções Acneicas Generalizados e Mucosites graves, quadros exacerbados de Radiodermite e Prurido Intenso devido às alterações imunológicas cutâneas decorrentes.

Um grande desafio

Em 2004 a Dermatologia pouco interagia com a Oncologia ou com a Radiologia.

Oncologistas, sempre lidando com novas drogas e terapêuticas, vendo múltiplos e cada vez mais graves efeitos colaterais, com dificuldade de identificação e diagnóstico dos de origem dermatológica, se viam desfiados em seu manejo.

A pele extremamente ressecada desencadeava quadros intensos de radiodermite e não havia nenhum estudo sobre o uso de qualquer terapêutica preventiva. Ao mesmo tempo, com a queda da imunidade cutânea, se apresentavam várias infecções.

Com o advento da imunoterapia e terapia alvo a pele imunologicamente exacerbada passou a apresentar quadros severos como síndrome Mão Pé, descolamento de todas as unhas mucosites gravíssimas, além de erupções acneicas generalizadas.

Estes quadros muitas vezes colocavam em risco a vida dos pacientes e a terapêutica oncológica precisava ser interrompida ou readequada a protocolos menos eficazes com alterações significativas de prognóstico, mas com menor risco de efeitos colaterais.

Dermatologistas, por falta de literatura médica sobre o assunto, evitavam intervir e a Oncodermatologia não englobava a Reabilitação Dermatológica dos pacientes em tratamento contra todos os tipos de tumores, não oferecendo prevenção ou tratamento dos distúrbios decorrentes dos tratamentos oncológicos.

Faltava conhecimento, comunicação e integração, o sofrimento era considerado inerente à alternativa da doença.

As dúvidas eram muitas: quanto ao diagnóstico e manejo dermatológico mais indicado, aos ativos e produtos indicados para a pele desses pacientes que tinham suas características cutâneas totalmente alteradas e, especialmente, quanto às possíveis interações medicamentosas com os tratamentos oncológicos em si.

Um dos momentos em que o paciente mais precisa de um dermatologista é na vigência dos tratamentos quimio e radioterápicos, pois eles apresentam inúmeras lesões dermatológicas ao mesmo tempo, além de estarem emocionalmente destruídos.

Meu objetivo sempre foi diminuir o grau de sofrimento destes pacientes durante o tratamento oncológico, através do Suporte Dermatológico, melhorando a autoestima, dando qualidade de vida, devolvendo a vontade de viver a essas pessoas e, em muitos casos, viabilizando a continuidade do tratamento oncológico através da melhora dos efeitos adversos decorrentes do mesmo.

Somente no Brasil mais de 1,2 Milhão de novos casos de câncer devam surgir entre 2018 e 2019 e em 2030 serão 27 milhões de novos casos por ano 

Estratégia adotada

A estratégia para enfrentamento desse desfio foi baseada na criação de um ambiente atendimento assistencial que proporcionasse a integração das especialidades, viabilizasse a pesquisa e que gerasse conhecimento.

Assim, com o objetivo de atender dermatologicamente os pacientes oncológicos e desenvolver pesquisas que proporcionassem uma diminuição significativa do grau de sofrimento e melhor qualidade de vida a estes, foi implantado o Ambulatório de Reabilitação Dermatológico na Oncologia da FMABC em novembro de 2004, que no decorrer dos anos transformou-se no Projeto Suporte Dermatológico para Pacientes Oncológicos.

Através deste projeto , implementado dentro da oncologia, iniciou se a integração entre as especialidades e o atendimento dos pacientes passava a formar a base das pesquisas que viríamos a realizar.

Cabe ressaltar que os pacientes com câncer atendidos naquele momento vinham, em sua maioria, com indicação de interrupção do tratamento oncológico pela gravidade dos efeitos colaterais sobre a pele e que em 73% dos casos pudemos evitar a interrupção. 

Resultados

Em 2010 o trabalho no Ambulatório de Reabilitação Dermatológico na Oncologia da FMABC resultou na publicação do estudo inédito “Alterações Dermatológicas Decorrentes dos Tratamentos Oncológicos – Adultos e Crianças”.

No mesmo ano a efetividade do trabalho se comprovou através do estudo “Impacto do Ambulatório de Reabilitação Dermatológica na Qualidade de Vida dos Pacientes Oncológicos da FMABC”, no qual se identificou uma diminuição de 82% do grau de sofrimento dos pacientes com câncer.

Dentro da faculdade, mais tarde, iniciamos a formação de acadêmicos e residentes e há três anos o atendimento no ambulatório faz parte do ciclo de especialização dos residentes em dermatologia e os acadêmicos tem o mesmo como matéria eletiva, estando a respectiva liga acadêmica em trâmite de aprovação.

A partir de 2017, iniciamos protocolos de investigação da indicação de tratamentos dermatológicos para pacientes oncológicos e em 2018 criamos o padrão de teste de produtos dermatológicos para pacientes oncológicos e a respectiva certificação “Dermatologicamente Testado para Pacientes Oncológicos”.

Em 2019 realizamos estudos de “Avaliação Clinica da Aceitabilidade Cutânea de Creme Hidratante, Loção Hidratante e Sabonete Líquido Corporal em Peles Oncológicas”,já publicados, e “Manejo das Alopécias no Paciente em Tratamento Oncológico Através do Uso de Minoxidil”, em processo de publicação.

Em paralelo, dezenas de palestras e aulas foram ministradas em congressos, reuniões médicas, ONGs e na indústria farmacêutica, tanto para despertar a atenção para o tema quanto para demonstrar os resultados e aprendizados do projeto.

Nessa jornada, para divulgar o projeto e orientar pacientes durante seu tratamento, foi criado o site www.suportedermatologico.com.br e a cartilha “Cuidados Dermatológicos para Pacientes em Tratamento Oncológico”, onde dicas de cuidados com a pele são passadas de forma leve e em linguagem acessível.

Após 15 anos, o Projeto Suporte Dermatológico para Pacientes Oncológicos segue totalmente voluntário, nenhum médico na Faculdade de Medicina do ABC é remunerado ou tem vínculo empregatício, e em um futuro próximo os protocolos de atendimento, prevenção e tratamento estarão disponíveis para outras instituições de ensino.